São João das margens plácidas

por: Lucas Santos
Esta semana lembrei-me de um fato inusitado e, ao mesmo tempo, questionável. Foi simples e momentâneo e que pouco me valeu no momento, mas instantes depois me fez pensar e buscar entendê-lo.
Visitei nossa Escola Municipal João de Assis Moreno juntamente com um amigo e ex-colega de classe do período em que lá estudei. Conversamos brevemente sobre o tempo em que fomos alunos daquela instituição e recordamos algumas situações vexantes e de malandragens típicas dos estudantes, mas que hoje pouco nos agrada. E nas passadas entre os corredores da escola, deparamo-nos com a placa de mármore dedicada à nossa turma na época da conclusão e pudemos enxergar nossos nomes inolvidáveis gravados sob a tela de vidro, e rápido nos lembrou de que ainda há pouco a parede ao lado da placa ostentava um grande banner, o qual continha de forma grandiosa o hino da escola e seus versos memoráveis. Logo depois de arrancar alguns versos mal cantados de nossa memória falha, meu amigo então me olhou e, como que ansioso, perguntou: “E como é que se canta o hino de São João?”
Silêncio…
Queria poder ter dito que não lembrava ou até mesmo que não sabia – isso de forma alguma me envergonharia –, mas ao invés disso o encarei e falei “São João não tem hino”. Ele apenas fez uma efêmera cara de surpresa antes de retomarmos o propósito da visita. No entanto, mais tarde essas curtas palavras voltaram ecoar em minha mente, fazendo surgir uma pesada interrogação em minha cabeça.
Tentei lembrar-se de quantos anos nossa cidade tem e me assustei quando descobri que não sabia. Pouco mais de cinquenta, apenas disso me recordei. Pouco mais de cinquenta anos de história e durante todo esse tempo ninguém se preocupou em criar um hino para nossa cidade, para homenageá-la e diferenciá-la das demais. O que cantamos no dia em que comemoramos a sua emancipação? Levantamos a bandeira do Brasil sob o hino brasileiro, a de Pernambuco sob o pernambucano e a de São João… Bem, será que repetimos o Hino Nacional? Infelizmente também não sei, pois nunca cheguei a participar de um evento como esse. O fato é que nossos fundadores deram apenas o pontapé inicial e esperavam que seus sucessores abraçassem seus ideais e prosseguissem com os devidos feitos. Infelizmente, percebe-se que a preservação da memória histórico-cultural de nossa cidade caiu no esquecimento ao longo das décadas e hoje esse assunto nem sequer surge em pautas políticas.
Para muitos isso se trata de uma besteira, e é esse tipo de comentário que me faz perceber o grau de insignificância que muitos de nossos conterrâneos dão à nossa cidade. Quantos de nós sabemos ao menos uma parcela significativa sobre a história do nosso município? Quantos professores se preocupam em transmitir aos seus alunos o básico sobre a cidade de São João? Quantos de nós sabemos, de fato, quantos anos São João tem?! E quem aí (desde que não tenha sido funcionário público) já participou de algum momento solene em comemoração ao aniversário da cidade?
Os números sem dúvida serão escassos e, certamente, a preguiça de ler levará muitos a abandonar este artigo logo após as perguntas acima, ou quem sabe já tenha feito isso logo nas primeiras linhas, o que reduzirá significativamente o número de pessoas atingidas.
Devemos nos perguntar por que somos assim. Por que não valorizamos o que é nosso? Por que pouco nos preocupamos em preservar nossa história e cultura? Por que sempre que estamos em um lugar diferente e que nos perguntam onde moramos respondemos “Garanhuns” ou “São João de Garanhuns”? Onde fica nossa cidade nessa história toda? Não é porque ela não existe no mapa que devemos apagá-la da memória ou jogá-la no esquecimento.
Que bom seria que um dia pudéssemos ser lembrados por uma característica só nossa, que nos distinguisse dos demais municípios de forma memorável, além da agricultura. Mas para isso, para que as pessoas possam olhar para São João e associá-lo a algo bom, primeiramente nós, como residentes e frutos da nova geração social que traz consigo um amadurecimento de ideais e uma visão renovadora, devemos olhar para nossa cidade e enxergar seus pontos positivos e disseminá-los. E, já que nos encontramos tão defasados e negligenciados, temos de tentar construir esse legado pelos alicerces, buscando recuperar o perdido e preencher as lacunas esquecidas. Quem sabe nesses anos não estaremos nos reunindo no dia 25 de novembro em local propício, bradando nosso futuro Hino Municipal. Enquanto não, qualquer um de nós pode parar frente ao açude municipal, admirar seu imenso espelho verde que reflete o céu e arriscar alguns versos do tipo “Salve, ó São João das margens plácidas!”.

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Publicado em julho 11, 2013, em Pernambuco, São João, Uncategorized e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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