EXCLUSIVO: Entrevista com Pe. Sérgio Tenório sobre sua saída para a Catedral

Pe. Sérgio Tenório

Pe. Sérgio Tenório


Após nove anos como pároco da cidade de São João, Pe. Sérgio Tenório se despede neste domingo, dia 02, deixando saudades nos corações de fieis e um legado de ações reformadoras que marcaram sua estada. A redação do Interior Informa fez uma entrevista exclusiva com o sacerdote, que fala sobre sua estadia, obras realizadas e expectativas nessa nova fase de seu ordenado.
Confira.
.
.

Padre Sérgio, como o senhor avaliaria os seus nove anos como pároco da cidade de São João?

Eu penso que tudo o que foi realizado só pode ser conceituado de maneira positiva, porque eu tenho consciência de que não fui eu que destinei os rumos da paróquia. Eu tenho certeza de que fui conduzido por Deus, apesar dos meus inúmeros defeitos, falhas, limites… Mas eu tenho certeza de que eu pedi muito a condução de Deus quando eu cheguei aqui e eu creio, acredito piamente, de que foi ele quem conduziu tudo. Para eu conceituar a ação de Deus, eu conceituo como sendo positiva. Deus sempre age positivamente. Se houve falhas, essas falhas não vieram de Deus, vieram da minha condição humana, por eu ser humano! Mas ainda assim, se errei em alguma coisa foi tentando acertar.

Sua chegada foi sinônimo de reforma na atuação da Igreja Católica em São João. Foram criados novos movimentos de participação, bem como foram extintos outros que já eram antigos e conhecidos na paróquia. Quais mudanças, positivas e negativas, o senhor pôde detectar com essa reforma?

Eu penso que, hoje, há uma maturidade generalizada nos movimentos e pastorais, apesar das contingências que eles também apresentam. Por que grupo é grupo, e grupo tem suas fragilidades, tem seus limites. Mas eu penso que eles estão alcançando, estão galgando patamares de maturidade cada vez maior. Penso que aquilo que foi extinto – e de fato foi mesmo – foi porque eu tomei posse daquilo que Deus disse a Jeremias: “Vou te mandar para arrancar e destruir, para plantar e derrubar!”. Então eu penso que o que foi extinto foi pela ação de Deus e o que foi criado foi pela ação de Deus.

Dentre as tantas obras que foram realizadas durante a sua estadia, quais o senhor considera mais relevante para a comunidade e igreja?

A restauração da Igreja Povo, Igreja Humana. Há nove anos eu cheguei e o padre não tinha, por parte muita gente na comunidade, o respeito, a consideração. Então hoje eu posso dizer que nem todo mundo gosta do padre, você também não é obrigado a gostar, mas ao menos se entende e se respeita a figura de um sacerdote. Então o sacerdote tem sua dignidade e deve ser respeitado. É a figura de Cristo na comunidade, mesmo com todas as quedas e falhas que ele tiver, seja eu ou qualquer outro, mas ele é a figura do Cristo, ele participa do múnus do bispo. Do múnus de ensinar, de santificar, de consolar, que vem do Espírito Santo de Deus. Ele participa, ele é um cooperador do bispo. E quando eu aqui cheguei as pessoas não tinham essa visão da dignidade sacerdotal, e hoje eu penso que a condição humana da Igreja, Povo de Deus, da Igreja Gente, da Igreja Viva, Humana… Eu penso que isso daí foi realmente um marco fundamental da passada. Não foi nenhuma obra física, estrutural. Nós temos grandes obras físicas e estruturais, mas eu penso que a maior de todas as obras foi a restauração da Igreja Povo.

Com tudo o que o senhor proporcionou em obras (o bloco Jesus Me Sacoleje, a reforma da Matriz, construção da torre, do Centro Pastoral e algumas capelas), há alguma coisa da qual lamenta não ter podido fazer?

Há. Há tanta coisa. Lamento não ter realizado o oratório no alto do cruzeiro; lamento não ter realizado, concretizado, o salão de eventos por trás da igreja. Que tem o projeto, inclusive. Lamento não ter construído a casa paroquial, que já existe o projeto pronto, mas não tivemos tempo para isso. Eu lamento não ter terminado a igreja do planalto. Já estamos com ela 70% construída, mas não 100%, porque toda obra mais importante foi realizada: foi edificada, está coberta, está fechada, já dá pro povo entrar, enfim… Lamento não ter terminado o jardim externo da igreja, por trás da torre. Lamento não ter trocado o piso, não ter trocado as bancas, não ter colocado os vitrais como eu sempre sonhei. Eu lamento não ter feito a capela das confissões. Lamento não ter tido tempo de fazer tudo isso. E se eu for enumerar são muitas coisas.

De todas as obras, a construção da torre acabou se tornando a mais polêmica. Rendeu tanto elogios quanto criticas, principalmente por grande parte da juventude insurgente. O que o senhor teria a nos dizer sobre isso?

Eu penso que o tempo é o senhor da razão. Com o tempo as pessoas vão entender do que se trata aquilo. Hoje, talvez, as pessoas não entendam, porque nós estamos numa época em que todo mundo se dá ao direito de discordar mesmo não entendendo bem do que está discordando. Todo mundo se dá o direito de dizer “eu acho”, mesmo sem entender de nada do que está achando. É o achismo… Eu penso que quem criticou um dia vai morder a língua. Vai poder olhar para trás e poder vê que isso aí é realmente um marco para a Igreja Católica em São João. Mas ainda não aconteceu nada, não. Essa semana vão acontecer coisas que vão ficar na história. Terça feira nós vamos subir com a imagem pro alto da torre, a imagem já está em São João. São 5,60m de imagem. Os sinos estão chegando, estão vindo de São Paulo e quinta feira estão aí; a iluminação está sendo começada. Foi tudo muito corrido! Ainda não terminou. Mesmo saindo da paróquia, as obras vão continuar e vai ser terminada da forma que a gente projetou.

Há boatos de que o senhor foi cotado para Bispo. Eles são verídicos ou infundados?

São infundados. A cotação para o episcopado não se dá dessa maneira. Um padre, para chegar a ser bispo, ele tem que ter uma história de trabalho. Mas eu não tenho pretensão de ser bispo, nunca tive essa pretensão. Eu quero ser padre da igreja, quero servir a Deus na igreja. E eu penso que para ser bispo, meu filho, é tão difícil, que eu acho que nem condições de sê-lo eu tenho. Tenho meus limites, tenho minhas contingências humanas e até intelectuais, que seriam pré requisitos para que o padre pudesse ser nomeado bispo. Então eu penso que isso são apenas boatos. Eu creio nisso, eu acredito nisso, porque o Vaticano é muito sigiloso, criterioso, na escolha dos seus candidatos a bispo, então não se dá dessa maneira. O povo é o último a saber, não o primeiro a saber, então não acontece dessa forma inversa.

Como o senhor encara a nova missão cristã de evangelizar na catedral de Garanhuns?

Eu encaro como sendo uma missão. Eu deixo São João com lágrimas nos olhos, com o coração apertado, porque eu amei muito essa terra, apesar de todas as críticas. Mas eu entendo que essas críticas surgiram de uma minoria, porque, sem falsa modéstia, a aceitação pelo trabalho do padre é grande na cidade. Se existe posicionamento diferentes é porque todo mundo tem liberdade para concordar ou não, para aceitar ou não, para aplaudir ou para jogar pedra. Todo mundo é livre para isso. Mas eu penso que no geral, o povo amou o padre, o padre amou o povo. Então se estou sendo enviado hoje para a Catedral, eu vou com a consciência de ser missionário, vou pela consciência que eu tenho de ser discípulo de Jesus Cristo, apóstolo de Jesus Cristo, e eu não devo me prender a um lugar. Se o bispo diz “Eu preciso de você”, então eu tenho de está a disposição para servir a ele, porque ele tem a plenitude do Espírito Santo. Certamente ele deve ter rezado muito, ele deve ter pedido muito a Deus muita luz para que ele pudesse colocar alguém na catedral que pudesse corresponder aos anseios dele na igreja diocesana. Então eu vejo a catedral como sendo um desafio, porque é uma igreja que não tem uma comunidade fixa. É uma igreja de público transitório, não é um público fixo, e isso é muito difícil de criar pastorais, movimentos e serviços. Mas vai ser um trabalho que não vou ser eu quem vou fazer, então quando a gente confia em Deus a gente não teme. Quem confia em Deus não pode temer a nenhuma problema, nenhum desafio. A gente desconhece a realidade, mas a gente sabe que à nossa frente está Deus. Então é ele quem vai conduzir tudo. Mais uma vez.

O que o senhor espera do seu sucessor na cidade de São João?

Eu espero que o padre Danilo corresponda aos anseios do povo. Eu espero que as pessoas o amem como eu fui amado. E espero que ele seja forte o suficiente para enfrentar os problemas que essa comunidade também apresenta. Eu espero que ele dê continuidade ao trabalho. Muitas sementes foram plantadas e não houve tempo de colhê-las. Ele vai colher. No campo da pastoral e em outros campos também. Então eu espero isso.

Qual o aprendizado que o senhor levará da cidade de São João?

De fato, São João foi a grande escola da minha vida, no meu campo do sacerdócio. Aprendi a ser padre aqui, aprendi com o povo a ser padre. Então o aprendizado que eu levo é saber escutar e respeitar as diferenças de opiniões. Penso que essa foi minha maior lição.

Qual a sua última mensagem para a população de São João?

Eu saio de São João, mas o povo de São João não sai do meu coração, vai permanecer no meu coração. Eu deixo São João, mas o povo não vai me deixar. Eu nunca vou esquecer São João. Eu sei que não é a mesma coisa, eu não vou ser mais o pastor. É ali pertinho. Não vou ser mais o pastor de vocês, mas levo a cidade no meu coração, eu espero que todo o povo possa colocar em prática tudo o que escutou – não de mim, mas de Deus por mim. A fé do povo não pode ser no padre, a fé do povo tem de ser em Deus. Então, se muda padre ou não, o povo deve permanecer firme na fé. Mas São João já deu testemunho de que era firme na fé, quando por tempestades, quando por lágrimas passadas… soube enfrentar tudo e guardar a fé. Então eu espero que o povo guarde a fé agora, nesse momento. Eu sei que é difícil. Se o povo está sofrendo, o padre também sofre. Mas eu creio que São João vai continuar sendo feliz e que Padre Danilo vai corresponder a tudo isso. Eu desejo a todo o povo a felicidade maior do mundo, para que o povo aprenda de Jesus Cristo as suas lições, os seus ensinamentos, e que eles continuem amando e respeitando o sacerdócio como agora, que a gente percebe que eles amam e que respeitam.

Blog Interior Informa

Anúncios

Sobre Interior Informa

UM NOVO MUNDO REQUER NOVOS MEIOS

Publicado em fevereiro 2, 2014, em Entrevista do Interior, São João, Uncategorized e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Viagem: Na Ponta do Lápis

Blog de viagens com dicas de alimentação, hospedagem e roteiro

Interferência Urbana

O cinza e a cor

Criaturas de Ñanderu: Releituras

Espaço para partilha de resultados do trabalho em torno do livro Criaturas de Ñanderu, escrito pela autora indígena Graça Graúna e ilustrado por José Carlos Lollo

Falando em Literatura...

só boa literatura desde 2008

Brasil de Todo Mundo

Apresentando o Brasil para gente de todo o mundo

paisagem de interior

Um Novo Mundo Requer Novos Meios - Blog Interior Informa

Mundo da Robótica

Fazendo a ponte entre a teoria e a prática.

Educação Política

mídia, economia e cultura - por Glauco Cortez

Blog do EVALDO TEIXEIRA

Opinião, Política, Variedades, Religião...

INTERIOR INFORMA

Um novo mundo requer novos meios.

RUBEM

Revista da Crônica - Notícias, entrevistas, resenhas e textos feitos ao rés-do-chão.

%d blogueiros gostam disto: