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ESPECIAL: CONHEÇA DONA EDITH, FIGURA ÍMPAR NO MUNICÍPIO DE SÃO JOÃO

ENTREVISTA

Dona Edith

Dona Edith

Simples, pequena e repleta de quadros religiosos pelas paredes. Esta é a casa de Edith Raquel de Araújo Silva – Dona Edith, como é conhecida. Uma senhora de 74 anos, moradora do sítio Serra dos Bois, em São João, e figura já bastante conhecida entre os mais velhos do município. A aposentada leva uma vida singela junto com uma filha de pouco mais de vinte anos, e divide o seu tempo entre os afazeres domésticos e a atividade que a tornou popular na região: rezar nas pessoas.

Numa época em que a procura médica é a primeira opção ao surgimento de qualquer sensação anormal no corpo, e até mesmo a religiosidade perde força, Dona Edith é um exemplo vivo de resistência da sabedoria e cultura popular, um verdadeiro poço de conhecimento e entendimento sobre as crenças de uma época em que o senso comum sobrepunha dos diagnósticos dos médicos. Sua “sina”, tão comum e respeitada no passado, hoje sofre com o esquecimento e a falta de préstimo das pessoas. Quem nunca visitou ou já ouviu os pais/avós falarem de alguma rezadeira que lhes curava males do corpo com o sacudir lógico de algumas plantas e sibilar de algumas orações próprias? Quem nunca sentiu aquela sensação estranha a qual os mais velhos nos dizem “Isso aí é mau-olhado!”, ou então já usou (ou usa) qualquer pingente simbólico com a intenção de espantar os “olhos gordos”.

Dona Edith - Blog Interior Informa2

O fato é que esse tipo de ação está, de certa forma, muito ligada ao intrigante e admirável trabalho exercido por Dona Edith, cada vez mais raro de se encontrar nos dias de hoje, e possivelmente prestes a se extinguir. Quase não se encontram pessoas feito ela pelos lugares, e as poucas que existem acabam sendo renegadas ou até mesmo discriminadas pelas novas gerações e fiéis extremistas. Mas nós não podíamos deixar de registrar aqui a importância histórico-cultural dessa profissão.

Com uma receptividade natural, sentados na simplicidade de sua sala ornada por imagens de santos (a grande maioria doada, como agradecimento pela melhora de algum mau), Dona Edith nos conta sobre seu ofício. “Comecei desde quando era nova. Minha avó veio morar com minha mãe e me ensinou a rezar”, diz ela.

Quando perguntada acerca do nome exato do que ela faz, simplesmente responde ser rezadeira. “Eu rezo de ‘mau-olhado’, de sol na cabeça, de vento caído, do vento mau, carne ‘triada’, a companhia virada, dor de dente, cobreiro, fogo selvagem…”. Embora católica praticante, ela explica que esse ofício não tem relação com qualquer religião, que o exerce independente de qualquer credo, e fazê-lo é algo que a deixa feliz “Pra mim é uma riqueza, a maior que Deus me deu. Acho bom quando chega gente na minha casa pra eu rezar. Fico tão alegre no mundo… Quando eu andava, tinha saúde, era Pitombeira, Volta do Rio, Várzea Dantas… eu ia pra todo canto para rezar no povo… eu me sinto bem, graças a Deus.”

Dona Edith - Blog Interior Informa

As dificuldades de uma vida humilde em nada intervém em seu dia-a-dia de prestação. Muitas são as pessoas que a procuram e vêm de diversos lugares, inclusive de outros municípios. “Perguntam em São João onde fica a casa de Edith rezadeira. Em Serra dos Bois! Eles vêm bater em minha casa. Vem gente para aqui que eu nem sei quem é. Vêm de Calçado, Lajedo, Volta do Rio, vêm de todo canto para aqui.”

Com tanta gente a procurando, vindo de tantos locais diferentes, tomando grande parte do seu tempo que poderia ser aproveitado em qualquer outra obrigação, talvez – quem não conheça – haja quem pergunte: quanto custa esse serviço? Sim, até porque as pessoas já estão habituadas a valorar as coisas e qualificá-las. Mas Dona Edith nos explica que essa é uma prática voluntária. “Esse pessoal que vivem rezando e dizem ‘é tanto’… Muita gente cobra, mas Deus me livre! Deus me defenda. Ninguém vende as palavras de Deus não, meu filho”, diz ela. E completa “O pessoal vem, traz um agrado pra mim, eu digo ‘Minha gente, pelo amor de Deus’, e eles ‘Não estou pagando a reza, estou lhe dando um agrado’. Peço que ponham nos pés do santo. Eu compro vela pra eles, todo mês eu compro dez maços de vela pra eles, e quando há alguém que me traz dinheiro peço ‘ponham nos pés do santo que eu mando comprar vela’.”

Dona Edith e o sobrinho Edmilson Santos

Dona Edith e o sobrinho Edmilson Santos

Quando indagada sobre a falta de credibilidade de algumas pessoas acerca do seu serviço, ela dá um exemplo de civilidade e tolerância “Pra quem não acredita eu não digo nada, elas lá façam o que Deus quiser, façam o que bem entenderem.”

Dona Edith, já bastante idosa, fala sobre como se transmite essas habilidades e demonstra um pouco de ressentimento ao citar a falta de interesse de seus descendentes em querer dar seguimento a seu trabalho. “Eu só ensinei a meu neto, ele aprendeu, mas passou pra ‘lei de crente’. À mulher não posso ensinar; quebra a força da reza. Posso ensinar a um homem.” E completa “Só a esse neto que ensinei, […] mas agora ele passou pra ‘lei de crente’… nem vai mais pro Juazeiro mais eu, nem reza o terço aqui mais eu. Mas que Deus esteja com ele em qualquer religião que ele vá. Mas eu queria que mais alguém se interessasse. Eu ensinaria.”

Dona Edith rezadeira é mais uma figura ímpar dentro do nosso município. É daquelas que faz pensar e repensar a nossa história e querer conhecer um pouco mais sobre as várias pessoas interessantes que São João esconde e que merecem – e devem – ser sempre lembradas.

Augusto Reges, Dona Edith e Lucas Santos

Augusto Reges, Dona Edith e Lucas Santos

Blog Interior Informa

EXCLUSIVO: Entrevista com Pe. Sérgio Tenório sobre sua saída para a Catedral

Pe. Sérgio Tenório

Pe. Sérgio Tenório


Após nove anos como pároco da cidade de São João, Pe. Sérgio Tenório se despede neste domingo, dia 02, deixando saudades nos corações de fieis e um legado de ações reformadoras que marcaram sua estada. A redação do Interior Informa fez uma entrevista exclusiva com o sacerdote, que fala sobre sua estadia, obras realizadas e expectativas nessa nova fase de seu ordenado.
Confira.
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Padre Sérgio, como o senhor avaliaria os seus nove anos como pároco da cidade de São João?

Eu penso que tudo o que foi realizado só pode ser conceituado de maneira positiva, porque eu tenho consciência de que não fui eu que destinei os rumos da paróquia. Eu tenho certeza de que fui conduzido por Deus, apesar dos meus inúmeros defeitos, falhas, limites… Mas eu tenho certeza de que eu pedi muito a condução de Deus quando eu cheguei aqui e eu creio, acredito piamente, de que foi ele quem conduziu tudo. Para eu conceituar a ação de Deus, eu conceituo como sendo positiva. Deus sempre age positivamente. Se houve falhas, essas falhas não vieram de Deus, vieram da minha condição humana, por eu ser humano! Mas ainda assim, se errei em alguma coisa foi tentando acertar.

Sua chegada foi sinônimo de reforma na atuação da Igreja Católica em São João. Foram criados novos movimentos de participação, bem como foram extintos outros que já eram antigos e conhecidos na paróquia. Quais mudanças, positivas e negativas, o senhor pôde detectar com essa reforma?

Eu penso que, hoje, há uma maturidade generalizada nos movimentos e pastorais, apesar das contingências que eles também apresentam. Por que grupo é grupo, e grupo tem suas fragilidades, tem seus limites. Mas eu penso que eles estão alcançando, estão galgando patamares de maturidade cada vez maior. Penso que aquilo que foi extinto – e de fato foi mesmo – foi porque eu tomei posse daquilo que Deus disse a Jeremias: “Vou te mandar para arrancar e destruir, para plantar e derrubar!”. Então eu penso que o que foi extinto foi pela ação de Deus e o que foi criado foi pela ação de Deus.

Dentre as tantas obras que foram realizadas durante a sua estadia, quais o senhor considera mais relevante para a comunidade e igreja?

A restauração da Igreja Povo, Igreja Humana. Há nove anos eu cheguei e o padre não tinha, por parte muita gente na comunidade, o respeito, a consideração. Então hoje eu posso dizer que nem todo mundo gosta do padre, você também não é obrigado a gostar, mas ao menos se entende e se respeita a figura de um sacerdote. Então o sacerdote tem sua dignidade e deve ser respeitado. É a figura de Cristo na comunidade, mesmo com todas as quedas e falhas que ele tiver, seja eu ou qualquer outro, mas ele é a figura do Cristo, ele participa do múnus do bispo. Do múnus de ensinar, de santificar, de consolar, que vem do Espírito Santo de Deus. Ele participa, ele é um cooperador do bispo. E quando eu aqui cheguei as pessoas não tinham essa visão da dignidade sacerdotal, e hoje eu penso que a condição humana da Igreja, Povo de Deus, da Igreja Gente, da Igreja Viva, Humana… Eu penso que isso daí foi realmente um marco fundamental da passada. Não foi nenhuma obra física, estrutural. Nós temos grandes obras físicas e estruturais, mas eu penso que a maior de todas as obras foi a restauração da Igreja Povo.

Com tudo o que o senhor proporcionou em obras (o bloco Jesus Me Sacoleje, a reforma da Matriz, construção da torre, do Centro Pastoral e algumas capelas), há alguma coisa da qual lamenta não ter podido fazer?

Há. Há tanta coisa. Lamento não ter realizado o oratório no alto do cruzeiro; lamento não ter realizado, concretizado, o salão de eventos por trás da igreja. Que tem o projeto, inclusive. Lamento não ter construído a casa paroquial, que já existe o projeto pronto, mas não tivemos tempo para isso. Eu lamento não ter terminado a igreja do planalto. Já estamos com ela 70% construída, mas não 100%, porque toda obra mais importante foi realizada: foi edificada, está coberta, está fechada, já dá pro povo entrar, enfim… Lamento não ter terminado o jardim externo da igreja, por trás da torre. Lamento não ter trocado o piso, não ter trocado as bancas, não ter colocado os vitrais como eu sempre sonhei. Eu lamento não ter feito a capela das confissões. Lamento não ter tido tempo de fazer tudo isso. E se eu for enumerar são muitas coisas.

De todas as obras, a construção da torre acabou se tornando a mais polêmica. Rendeu tanto elogios quanto criticas, principalmente por grande parte da juventude insurgente. O que o senhor teria a nos dizer sobre isso?

Eu penso que o tempo é o senhor da razão. Com o tempo as pessoas vão entender do que se trata aquilo. Hoje, talvez, as pessoas não entendam, porque nós estamos numa época em que todo mundo se dá ao direito de discordar mesmo não entendendo bem do que está discordando. Todo mundo se dá o direito de dizer “eu acho”, mesmo sem entender de nada do que está achando. É o achismo… Eu penso que quem criticou um dia vai morder a língua. Vai poder olhar para trás e poder vê que isso aí é realmente um marco para a Igreja Católica em São João. Mas ainda não aconteceu nada, não. Essa semana vão acontecer coisas que vão ficar na história. Terça feira nós vamos subir com a imagem pro alto da torre, a imagem já está em São João. São 5,60m de imagem. Os sinos estão chegando, estão vindo de São Paulo e quinta feira estão aí; a iluminação está sendo começada. Foi tudo muito corrido! Ainda não terminou. Mesmo saindo da paróquia, as obras vão continuar e vai ser terminada da forma que a gente projetou.

Há boatos de que o senhor foi cotado para Bispo. Eles são verídicos ou infundados?

São infundados. A cotação para o episcopado não se dá dessa maneira. Um padre, para chegar a ser bispo, ele tem que ter uma história de trabalho. Mas eu não tenho pretensão de ser bispo, nunca tive essa pretensão. Eu quero ser padre da igreja, quero servir a Deus na igreja. E eu penso que para ser bispo, meu filho, é tão difícil, que eu acho que nem condições de sê-lo eu tenho. Tenho meus limites, tenho minhas contingências humanas e até intelectuais, que seriam pré requisitos para que o padre pudesse ser nomeado bispo. Então eu penso que isso são apenas boatos. Eu creio nisso, eu acredito nisso, porque o Vaticano é muito sigiloso, criterioso, na escolha dos seus candidatos a bispo, então não se dá dessa maneira. O povo é o último a saber, não o primeiro a saber, então não acontece dessa forma inversa.

Como o senhor encara a nova missão cristã de evangelizar na catedral de Garanhuns?

Eu encaro como sendo uma missão. Eu deixo São João com lágrimas nos olhos, com o coração apertado, porque eu amei muito essa terra, apesar de todas as críticas. Mas eu entendo que essas críticas surgiram de uma minoria, porque, sem falsa modéstia, a aceitação pelo trabalho do padre é grande na cidade. Se existe posicionamento diferentes é porque todo mundo tem liberdade para concordar ou não, para aceitar ou não, para aplaudir ou para jogar pedra. Todo mundo é livre para isso. Mas eu penso que no geral, o povo amou o padre, o padre amou o povo. Então se estou sendo enviado hoje para a Catedral, eu vou com a consciência de ser missionário, vou pela consciência que eu tenho de ser discípulo de Jesus Cristo, apóstolo de Jesus Cristo, e eu não devo me prender a um lugar. Se o bispo diz “Eu preciso de você”, então eu tenho de está a disposição para servir a ele, porque ele tem a plenitude do Espírito Santo. Certamente ele deve ter rezado muito, ele deve ter pedido muito a Deus muita luz para que ele pudesse colocar alguém na catedral que pudesse corresponder aos anseios dele na igreja diocesana. Então eu vejo a catedral como sendo um desafio, porque é uma igreja que não tem uma comunidade fixa. É uma igreja de público transitório, não é um público fixo, e isso é muito difícil de criar pastorais, movimentos e serviços. Mas vai ser um trabalho que não vou ser eu quem vou fazer, então quando a gente confia em Deus a gente não teme. Quem confia em Deus não pode temer a nenhuma problema, nenhum desafio. A gente desconhece a realidade, mas a gente sabe que à nossa frente está Deus. Então é ele quem vai conduzir tudo. Mais uma vez.

O que o senhor espera do seu sucessor na cidade de São João?

Eu espero que o padre Danilo corresponda aos anseios do povo. Eu espero que as pessoas o amem como eu fui amado. E espero que ele seja forte o suficiente para enfrentar os problemas que essa comunidade também apresenta. Eu espero que ele dê continuidade ao trabalho. Muitas sementes foram plantadas e não houve tempo de colhê-las. Ele vai colher. No campo da pastoral e em outros campos também. Então eu espero isso.

Qual o aprendizado que o senhor levará da cidade de São João?

De fato, São João foi a grande escola da minha vida, no meu campo do sacerdócio. Aprendi a ser padre aqui, aprendi com o povo a ser padre. Então o aprendizado que eu levo é saber escutar e respeitar as diferenças de opiniões. Penso que essa foi minha maior lição.

Qual a sua última mensagem para a população de São João?

Eu saio de São João, mas o povo de São João não sai do meu coração, vai permanecer no meu coração. Eu deixo São João, mas o povo não vai me deixar. Eu nunca vou esquecer São João. Eu sei que não é a mesma coisa, eu não vou ser mais o pastor. É ali pertinho. Não vou ser mais o pastor de vocês, mas levo a cidade no meu coração, eu espero que todo o povo possa colocar em prática tudo o que escutou – não de mim, mas de Deus por mim. A fé do povo não pode ser no padre, a fé do povo tem de ser em Deus. Então, se muda padre ou não, o povo deve permanecer firme na fé. Mas São João já deu testemunho de que era firme na fé, quando por tempestades, quando por lágrimas passadas… soube enfrentar tudo e guardar a fé. Então eu espero que o povo guarde a fé agora, nesse momento. Eu sei que é difícil. Se o povo está sofrendo, o padre também sofre. Mas eu creio que São João vai continuar sendo feliz e que Padre Danilo vai corresponder a tudo isso. Eu desejo a todo o povo a felicidade maior do mundo, para que o povo aprenda de Jesus Cristo as suas lições, os seus ensinamentos, e que eles continuem amando e respeitando o sacerdócio como agora, que a gente percebe que eles amam e que respeitam.

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